Ciclo do Recife (1923-1931)

A fantasia do mundo da Sétima Arte começou a fazer parte do cotidiano pernambucano na década de 20, do século passado, quando os italianos J. Cambière e Ugo Falangola chegaram ao Recife com uma novidade: a realidade capturada por uma máquina. À época, os estrangeiros, fundaram a Pernambuco Film, que em 1925 viria a repassar sua sede e seu equipamento à produtiva Aurora-Film.

Pioneira no Nordeste, a nova produtora – fundada pelo ourives Edson Chagas e pelo gravador Gentil Roiz, com o apoio do estudante de engenharia Ary Severo, na Rua São João, 485, no bairro de São José – nasce com o objetivo de rodar filmes de enredo e dá o primeiro passo no cenário cinematográfico com a produção de Retribuição. O filme, lançado em 1925, durou dois anos para ser filmado, e estreou no Cine Royal – localizado na Rua Nova –, sendo um sucesso de público. A história, cujo roteiro e direção de Gentil Roiz, e fotografia de Edson Chagas, era estrelada por Almery Steves e Barreto Júnior, que disputavam com bandidos um tesouro enterrado em Olinda.

Animados com a excelente receptividade dos espectadores recifenses, os produtores da Aurora-Film rodaram no mesmo ano Um Ato de Humanidade. O curta-metragem, escrito por Gentil Roiz, havia sido encomendado pelo Laboratório Maciel para fazer propaganda da Garrafada do Sertão – remédio bastante popular na época. O melodrama de 20 minutos conta a história de um jovem sifilítico – interpretado por Jota Soares, sua estreia no cinema – que, após medicar-se com o “santo remédio”, cura-se da doença.

Durante a realização do Ciclo do Recife (1923 a 1931) – a capital pernambucana tornava-se o centro de produção cinematográfica do Brasil com a produção de 13 longas-metragens, que ganharam as telas dos cinemas da cidade. Cerca de 30 pessoas participaram dessa empreitada, entre eles, jovens jornalistas, servidores públicos e comerciantes.

Com os recursos financeiros obtidos da “Garrafada”, a Aurora-Film investiu em um novo projeto: Jurando Vingar. Inspirado mais uma vez em filmes americanos, a película foi dirigida por Ary Severo – com roteiro de Gentil Roiz e fotografia de Edson Chagas – e passava nos canaviais e engenhos do Estado. Rilda Fernandes e Gentil Roiz interpretaram os papeis principais.

A próxima produção da Aurora-Film surgiu de críticas de colunistas dos jornais locais com relação à temática abordada nos filmes. Dessa forma, Aitaré da Praia nasceu da ideia de explorar assuntos regionais. Dirigido por Roiz, com roteiro de Severo e fotografia de Chagas, o longa era tido como “um poema de costumes de heróis jangadeiros”. Estrelado por Almery Steves e Ary Severo, a trama de 62 minutos gira em torno da história de amor entre um pescador e uma jovem, em que a mãe da moça reprova o romance.

Em meio à efervescência do cinema em Pernambuco, outras produtoras nascem, mas têm pouco tempo de vida, a exemplo da Planeta Filme, Vera Cruz Filme, Olinda Filme e Veneza Filme. Filho sem Mãe, rodado em 1925, sob direção de Alcebíades Araújo e estrelado por ele mesmo, Barreto Júnior e Creusa das Neves, narra uma paixão de um casal em meio a uma luta entre políticos e cangaceiros. Já História de uma Alma, da Vera Cruz Filme, foi a última produção do ano. A obra baseava-se no manuscrito autobiográfico de Santa Teresa de Lisieux.

Em 1926, a Aurora-Film enfrenta grave crise, apesar dos esforços de Edson Chagas em rodar o natural Carnaval Pernambucano. No entanto, os recursos financeiros investidos pelo empresário João Pedrosa da Fonseca salvaram a produtora da derrocada. Após esse momento conturbado, Gentil Roiz deixou o Recife e seguiu para o Rio de Janeiro para tentar, sem sucesso, por Aitaré da Praia no mercado exibidor do país. Nesse período, também se casou com a companheira de cena em Jurando Vingar, Rilda Fernandes.

Ainda nesse ano, chega ao mercado Herói do Século XX. Com ares de comédia americana, foi dirigida por Ary Severo e teve fotografia de Edson Chagas. No elenco, destaque para a desenvoltura de Jota Soares, que interpretou dois personagens: um falso cego e um judeu barbudo e rabugento.

O auge – Nesse período, os holofotes do sucesso apontavam para A Filha do Advogado, a mais ambiciosa produção da Aurora-Film e do Ciclo do Recife. A película foi rodada em 1927 e chegou a ser exibida comercialmente em 31 salas do Rio de Janeiro. O melodrama contou, inicialmente, com Ary Severo como diretor e personagem principal. No entanto, um desentendimento entre ele e Edson Chagas fez com que Jota Soares, com apenas 20 anos de idade, assumisse o papel e a direção da obra. Baseada em uma novela do poeta Costa Monteiro, a trama consistia em um triângulo amoroso, em que a mocinha rejeitava o bandido.

Ainda em 1926, Jota Soares é convidado para ser responsável por toda a parte técnica de um projeto da Goiana Filme, o filme Sangue de Irmão. Único longa do ciclo a ser produzido fora do Recife, o longa filmado em Goiana, tinha caráter policial, uma vez que o enredo girava em torno de um homem malvado, do qual espancou um velho paralítico e raptou sua filha de oitos anos de idade.

Mesmo com a falência da Aurora-Film, em 1927, Edson Chagas, juntamente com Ary Severo e Luiz Maranhão, fundam a Liberdade Filme. A primeira empreitada do trio com a nova produtora é Dança, Amor e Ventura, obra cujo roteiro e direção são de Ary Severo. Na história – em que uma moça é raptada por ciganos -, Severo contracena mais uma vez ao lado de sua amada Almery Steves. Ainda nesse ano, são realizadas mais duas produções: os naturais Chegada do Jaú a Recife e o Progresso da Sciência Médica. Outra película é rodada em 1927. Agora é a vez da Olinda Filme. O drama Reveses traz a história de um fazendeiro próspero, no entanto, mau e bruto.

Durante o ano de 1928, outras pequenas produtoras tentaram iniciar outras obras, sem sucesso. Entre esses projetos, Destino das Rosas sobressai-se. Rodada entre 1929 e 1930, a trama da Sociedade Pernambucana de Indústrias Artísticas contou com a direção e o roteiro de Ary Severo, além de vários nomes conhecidos no elenco como, por exemplo, Almery Steves e Luiz Maranhão.

A decadência – Apesar do surgimento dos filmes sonoros – que fez com que muitos espectadores se perdessem o interesse pelo cinema mudo –, a Liberdade Filme rodou em 1930 o drama No Cenário da Vida, que viria a ser lançado em 1931. A trama – dirigida por Luiz Maranhão e Jota Soares, que também foi responsável pelo argumento e pelo roteiro, junto a Mário Mendonça, além de ter fotografia de Edson Chagas – acontecia em meio à alta sociedade recifense, nos moldes de A Filha do Advogado.

No Cenário da Vida foi a última produção do movimento do cinema mudo no Recife. Outras tentativas de recuperar o prestígio e a notoriedade foram feitas nos anos seguintes por Dustan Maciel, no entanto, todas fracassadas. Fred Júnior, fundador da Iate Filmes, iniciou alguns projetos como Odisséia de uma Vida e Audácia do Ciúme, entretanto, as películas permaneceram incompletas.

Referência Bibliográfica: “Cinema Pernambucano – uma história em ciclos”, de Alexandre Figueirôa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: